D E V A N E I O S

 

            Dado a paixões. Assim, no hall dos amantes, classifico o homem entregue às tolices amorosas. E ei-lo um aqui, tecendo retalhos de idílio que a vida costura em tecidos longos e as nossas mulheres desenham em rendas.

Noutro tempo, quase perdi a cabeça. Ora apaixonado por uma moça invisível, ora por uma criatura (esta real) que, no prédio vizinho, limpava os vidros da janela de seu apartamento com os seios desnudos. Eles desnudos, e eu fascinado. Curta distância aquela que meus olhos traziam entre seios tão fartos e intimistas.

“Ela não limpava os vidros. Limpava seus olhos, pra você enxergar melhor seus seios”, refletiu Arão.

Ali, num parapeito débil, eu descansava minhas ilusões. Entregue a um voyeurismo apaixonado, ruminando mamilos em riste e pernas elásticas num exercício ofegante, deleitava-me àqueles movimentos convidativos. Mas tudo isso foi outrora.

Nesse instante, o que posa para a janela dos meus olhos não é imaginação, tampouco uma vizinha dada a limpezas que posta homens na janela. Não são bundas redondamente projetadas que rebolam a minha frente, nem coxas roliças hermeticamente desenhadas para evitar estrias ou celulites. Não se trata, também, de véus transparentes pouco misteriosos que, julgam, enfeitiçam até o padre Toledo. Os silicones também não têm responsabilidade para com esse devaneio. Não são bailarinas domingueiras mecanicamente sorridentes e escolhidas a dedo, para chateação das outras; também não são beldades de auditórios noturnos que cospem futilidades no tapete de casa.

Enfim, o que está deixando em ebulição minhas inclinações romanescas não é nenhuma mulher seminua moldada às imposições da moda; trata-se de três centímetros quadrados da moça que está na fila. Uma mulher vestida é mais sensual e atraente do que vinte nuas.

É nessas circunstâncias que as filas de banco têm vantagens laboriosas, e não me importaria se elas demorassem a eternidade, só para ficar deslumbrando aquele retalho de paixão que empresta a minha vida uma outra atmosfera, uma outra canção, uma outra percepção do meio.

Uma afegã, ao que mostram as imagens da TV, deixaria um homem como eu em fagulhas, prostrado num campo onde tudo inspira beleza e os arranha-céus constituem-se em caules gigantes. Mas estou no Brasil, e não no Afeganistão, e isso me satisfaz... confirmar que nesse rincão do planeta ainda posso nutrir paixões por mulheres vestidas, quando nos catálogos desfilam mulatas sambistas e bumbuns artificiais que os coqueiros midiáticos deixam cair povoando as cabeças masculinas.

Três centímetros quadrados. Exatamente isso. A paixão não tem início tão-somente a partir de pernas nuas, peitos siliconados e insinuações eróticas.

SOBRE COMPARAÇÕES I

Detesto comparações. Fico com a impressão de que sou uma versão mal feita de alguém, de que não tenho personalidade própria,  de que estou tentando  ser alguém que não sou... Cai na Lei de Murphy. Vez por outra me arranjam um sósia, isto é, viro sósia de alguém. Primeiro foi minha Vó. Disse que eu era a cara do Marcelo Rossi.  

– Pô Vó... Marcelo Rossi... Eu nem canto aquelas musiquinhas idiotas...

– Mas seu olho parece com o dele!!!

- Mas Vó... existem trocentas pessoas com olho azul.

- Não me referi a cor. É a forma como os olhos de vocês falam.

 

Depois foi a Vanessa.

– Você conhece o COLDPLAY?  

-  Sim, Vanessa, conheço e gosto.

– Você parece muito com o vocalista, o Chris.

- Ah tá....

Aí a Marina veio com o mesmo papo.

- Caramba, quando você deixa a barba crescer um pouquinho fica igual ao Chris do COLDPLAY...

 

O último clone mal feito que me arranjaram foi o Tony. Aquele cara da novela que batia na Jade, quero dizer... Giovanna... sei lá o nome dela na novela... Só sei que ele chamava ela de CORAÇÃO. Desta vez foi no trabalho. Uma cliente perguntou se eu era malvado como ele...

 

O que um padre, um ator e um cantor têm em comum (além de estarem na mídia ganhando dinheiro)?

ESTA NÃO É UMA HISTÓRIA SOBRE DROGAS

Conheci Romero no auge da nossa adolescência.Ele é paulistano e, como estava “dando trabalho” aos pais lá em Sampa, veio passar uma temporada com os tios. Logo ficamos amigos. Ele era descolado, inteligente e chamava a atenção da mulherada. Freqüentava minha casa com assiduidade até o dia que chegou completamente bêbado num jantar que meu pai ofereceu aos amigos. Ele entrou correndo e fazendo piadas. Eu estava no banho. Ele entrou no banheiro. Meu pai irritou-se, tirou-o de lá e expulsou-o. Disse que não queria um drogado andando com seu filho.

Fui proibido de procurá-lo, mas não adiantou muito. Continuamos amigos apesar dele não poder ir lá em casa.

Começaram a surgir uns boatos sobre ele. Fumava maconha, traficava cocaína, comia viado. De uma hora para outra começou a ser excluído de tudo. Todos se afastaram dele.

Uma vez me disse que as pessoas daqui estavam agindo como os pais dele. Sendo indiferentes....

Voltou pra São Paulo e perdemos o contato. Mês passado fiquei sabendo que ele está internado há quase dois anos numa “clínica de desintoxicação”. Vive a base de medicamentos que o deixam retardado. Talvez nunca se recupere. Talvez nunca saia de lá.

Pobre Romero. Só queria atenção!

Coisas que FREUD explicaria (OU NÃO)

Ele nunca relaxava. Não se enquadrava no meio em que vivia. Não se sentia normal. Não ria... Tudo era banal, sem graça, sem necessidade. Suas namoradas sempre diziam que ele tinha uma pedra no lugar do coração. Pobre Rafaela... não sei como agüentou-o tanto tempo. Sua família sempre tentava animá-lo em vão. Seus amigos fingiam que ele não era chato. Então, resolveu procurar ajuda especializada. Foi escondido ao consultório. Temia o rótulo de louco. Esperou quase quarenta minutos para ser atendido. Ficou puto. Quando finalmente chegou sua vez, quase explodiu de ódio. O psicólogo perguntou qual era o problema dele.  - Se eu soubesse qual era meu problema não teria vindo aqui!!!   Levantou-se e dirigiu-se à porta. – Calma, disse o doutor, vamos tentar de novo. O que está te incomodando ultimamente? – Tudo!!! E, depois de meia hora de conversa, a prescrição: - Não é o mundo que precisa se adaptar a você. É você que  precisa adaptar-se ao mundo!

Após seis sessões foi dispensado. – Acho melhor você procurar um psiquiatra ou um terapeuta desses que fazem regressão. – Sou louco doutor? – Não, louco sou eu de tentar te consertar!

Nunca procurei psiquiatras ou terapeutas. Continuo com essa sensação de inacabento, de vazio. Se bem que o Rubem Alves diz que o vazio é mais importante que o cheio, pois qual seria a utilidade de um copo ou de um canudo se não fosse o vazio do seu interior?A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade...”

Continuo INCONSTANTE... METAMORFOSE AMBULANTE... CARA ESTRANHO...

M E N T I R A

Não lembro onde vi este texto, acho que foi no filme 21 gramas. Fantástico!


"(...) Mas tem algo que você deveria saber, que sempre que uma pessoa mente, ela deixa de existir por uns segundos, apagando com borracha a sua história. E então, se ela continua a mentir, ela vai desaparecendo, desaparecendo, até se tornar uma ilusão e sumir de vez."
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