SOBRE ESCOLHAS

O egoísmo é inerente ao ser humano. Sempre queremos mais. Nunca estamos satisfeitos. Nem mesmo quando conquistamos algo tão almejado outrora. Lembro da época não tão distante da faculdade. Sempre se falava em sonhos. Eu nunca falava sobre os meus.  Todo mundo queria uma casa na praia, com piscina e um carrão na garagem. Quase ninguém falava em trabalhar. Falavam do dinheiro que iriam ganhar. Do sucesso. Das festas. Dos modernos aparelhos eletrônicos. Das viagens ao exterior. Eu nunca quis isso. Mentira. Eu nunca quis só isso. E hoje, dois anos após ter deixado a faculdade e já estar cursando MBA ainda penso assim. Minhas prioridades continuam sendo outras. Prefiro estar jogando conversa fora com os amigos, tomando Sapupara Limão [e não cobrei merchandising], do que estar no meu super quarto assistindo um show do The Strokes, apesar de eu ser muito fã dos caras. Prefiro ir pro sitio de Henrique Paulo e me perder no caminho com a galera. Prefiro ir pra casa de Selma rir com as palhaçadas dela e refletir com suas opiniões fortes.  Prefiro ir com Kaênia pro bar de Naldo ficar ouvindo o Quinturaré tocar. Prefiro ir com Fernandinho e Diego pro açude do avô de Marcio fazer guerra de lama. Prefiro ir pra AABB no domingo de manha jogar vôlei com Vanessinha F e cia. Prefiro ir com Junior e Aninha ao cinema ver Lisbela e o Prisioneiro. Prefiro ser chantageado e ir a um show de Bruno & Marrone mesmo tendo de sair de lá correndo com o tiroteio. Prefiro sair atrás do trio de Alceu Valença com Arlinso e Deogenes. Prefiro ficar tentando convencer Simone de que eu sou o homem da vida dela. Prefiro ficar de porre de tanto vinho junto com a galera do IBGE. Prefiro ir pro supermercado no sábado de manhã tomar café com as degustadoras. Prefiro assistir filmes no PC com Junior e Soraya. Prefiro estar no banho de bica da Casa de Paulo ouvindo as mentiras de Acácio e de Robenaldo. Prefiro ficar horas ouvindo as histórias de Jack e Aline. Preferia. Por que optei por deixá-los. E, apesar de não ser um mercenário, admito, foi por dinheiro. Não estou arrependido, porque mudanças são necessárias, mas sinto muita falta de todos vocês. E não, definitivamente não está na hora de construir minha casa própria!

O VENTO NOTURNO

O vento noturno tem um triste hábito de vagar dando voltas e voltas numa igreja, gemendo à medida que caminha. E tem o hábito de experimentar, com sua mão invisível, as janelas e a porta, procurando algumas fendas pelas quais entrar. E, quando entra, como alguém que não acha o que procura, o que quer que essa coisa possa ser, ele se queixa e uiva para lançar-se avante outra vez. E não contente com a marcha... esvoaça até o teto e esforça-se para arrancar as vigas. Então, lança-se desesperadamente sobre as pedras de baixo, e passa, resmungando, para dentro das abóbadas. Logo ele sobe furtivamente e arrasta-se ao longo das paredes, parecendo ler, em murmúrios, as inscrições consagradas aos mortos. Por algumas destas inscrições, ele esnoba agudamente, como se estivesse rindo,  e outras, geme e chora, como se estivesse lamentando. Ele tem um som fantasmagórico também... demorando-se dentro do altar, onde parece cantar, à sua maneira selvagem, erros e crimes cometidos, e falsos deuses adorados, em desafio as tábuas da lei que parecem tão claras e lisas, mas são tão defeituosas e quebradas. O céu nos preserve, sentados aconchegadamente junto a lareira. Ele tem uma voz terrível, esse vento à meia-noite, cantando numa igreja.

 

O texto é do Charles Dickens. A tradução mal-feita é minha.

C A S A M E N T O

Após alguns anos de convivência, esqueci como começamos. A modernidade trouxe a falência, e tudo falia em nosso lar. Deixamos de fantasiar, de sonhar, e a realidade nos era hostil. Liberdade já não tínhamos. Vieram os filhos e nossas famílias. Angustiado, recorri à companhia dos antigos amigos, que insistiam que o sonho havia acabado. Sempre acabava nos bares.

Apolo, após todos os relatos, foi ao telefone. Não entendi o que falava, nem sabia com quem. Horas depois o garçom solicitou-me: “É melhor o senhor ir-se, cavalheiro. O bar fechou.”

 

 

P.S.1: Fui convidado para ser padrinho de casamento de um casal (só podia ser um casal!) de amigos. O noivado foi hoje. Não pude ir (nem mandei presente hehehehehehe). Parabéns pelo encontro, apesar de vocês saberem minha opinião sobre casamento e encontros perfeitos.

 

P.S.2: Hoje também foi o casamento daquela guria que comentei no post de 30.11.04.

 

P.S.3: Tô viciado em passar finais de semana em lugares diferentes. Até segunda.

C O T I D I A N O

Ela chegou falando umas coisas esquisitas. Ele estava com saudades. Ouviu tudo. Sorriu. Tentou entender. Ela parecia feliz. Diferente, é verdade, mas feliz.  Não se viam há alguns meses... E como ela mudou. Mais segura, mais mulher, mais atraente, mais ... muito mais.

Ele ficou encantado com a mudança. Ela continuava confiando nele mesmo com a distância. Ela queria contar algo a ele mas parecia estar sem jeito. Uma dose de Whisk e outra e outra e ficaram a vontade. Ela não resistiu. Contou a ele que estava fumando. Maconha. Ele, curioso, fez-se passar por alguém que curte baseado e disse que também fumava. Lembrou-a até dos incensos que tinha em casa. Disfarçavam o cheiro da erva. Ela contou-o então como começou. Ele ouviu tudo. Sorriu. Tentou entender. Ela parecia feliz. Diferente, é verdade, mas feliz. Ficou aliviada por suas suspeitas terem se confirmado. Ele, porém ficou triste.  Mentiu. Decepcionou-se consigo mesmo por tê-la induzido a confessar.

Não conseguiu dizer a ela que não, não fumava. Nunca provou. Nunca quis conhecer. Ele está triste. Muito triste. Não por saber que ela fuma. Está triste por ter mentido.

[ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL, Homem, de 20 a 25 anos, Música, Viagens, Livros, Amigos e beijo na boca

 
Visitante número: